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"Estes vinhos são bons. Os rótulos ainda melhores "
Notícia in ObservadorPartilhar de 23-08-2017 12:00:00

Há rótulos de vinho que são verdadeiras obras de arte, uns divertidos, outros mais sentimentais. Depois dos brindes e dos copos vazios, há garrafas que dão mesmo pena deitar fora. Escolhemos oito.
Ribeiro Santo ET


“Quando comecei a fazer vinho, nós, no Dão, recebíamos vinhos mistos nas adegas cooperativas, de uvas tintas e brancas”, começa por explicar o enólogo Carlos Lucas. Os vinhos mistos de outros tempos davam origem a vinhos do Dão mais leves em cor e mais aromáticos no nariz. Eram tão representativos na produção global que as suas características chegaram a valer à região uma comparação com Borgonha, em França. Avançando o relógio do tempo, fazer um vinho com um perfil semelhante nos dias que correm é, nas palavras de Carlos Lucas, “fazer um vinho extraterrestre”. Nem mais. O Ribeiro Santo ET é feito a partir das castas que lhe dão a sigla: encruzado (uva branca) e a tinta touriga Nacional. “O ET é um vinho com menos cor, muito delicado e com uma estrutura interessante. Teve um ano em barrica de segundo ano”, assegura o homem que o fez nascer.
Atualmente existem duas colheitas do vinho que leva no rótulo uma imagem obviamente inspirada no filme de 1982 de Steven Spielberg, sendo que a colheita de 2014 deverá chegar ao mercado já em novembro.

Boina
Foi o avô que andava sempre de boina que lhe passou o gosto pelo vinho. A julgar pelo chapéu de pala curta que Nuno Aguiar, enólogo que já colaborou com Anselmo Mendes, leva na cabeça até durante o almoço, o avô passou-lhe também a boina. Da estima e da saudade nasceu um vinho desenhado à imagem do homem que o ajudou a crescer, mas também em homenagem aos viticultores do Douro. O Boina — cujo tinto é feito com vinhas velhas de dois terroirs diferentes e o branco leva rabigato, síria, viosinho e códega do larinho — diz respeito a um vinho do Douro, sem madeira, e representa a marca de maior volume do projeto Portugal Boutique Winery. Criado em maio de 2016, a empresa em parceria com António Olazabal Ferreira está apostada em fazer nascer vinhos do Douro e de Trás-os-Montes. Na demanda das uvas ideais, Nuno Aguiar calcorreou milhares de quilómetros num só mês, sendo que o vinho é vinificado na adega de um primo, em Miranda do Douro. Já o rótulo, esse, consiste num desenho abstrato da autoria do arquiteto Gião Pinto Leite e o design é da 327 Creative Studio, em parceria com o enólogo.


Quinta do Pôpa Homenagem

A duriense Quinta do Pôpa já é, em si, uma homenagem ao homem que, tendo crescido entre vinhas que não eram suas, sempre teve o sonho de ter um “pedacinho do Douro”. O Pôpa, avô de Stéphane e Vanessa Ferreira, irmãos que gerem a propriedade, não viveu para ver o desejo de longa data concretizar-se, mas é continuamente recordado. Exemplo disso é o vinho Homenagem, um vinho de guarda, mais austero, cuja primeira colheita, 2009, apenas foi lançada há sensivelmente dois anos. “Sempre quisemos fazer o Homenagem. Um dia, um amigo nosso disse que queria fazer o rótulo do vinho. Usou uma fotografia do avô e fez o desenho ainda antes de o vinho estar pronto. Inspirou-se nas antigas garrafas de Vinho do Porto, em tempos pintadas à mão, para fazer o retrato do meu avô”, explica Vanessa Ferreira no final de mais uma visita guiada pela quinta.

Até a primeira edição do vinho ser lançada, só Vanessa, Stéphane e o amigo, de nome Rui Costa, sabiam que vinho era aquele. Sem nunca contarem do que se tratava, foram-no dando a provar, ano após ano, até as opiniões de terceiros confirmarem a suspeita: o vinho estava finalmente pronto. “Nunca ninguém soube que vinho era, nem o pai”, confirma Vanessa, que conta que este chorou quando finalmente viu o tão estimado rótulo. “Se o teu avô fosse vivo… nem sei o que é que diria”, terá comentado o patriarca da família. A terceira colheita deverá chegar ainda no final do ano. Até lá, o homem que nunca foi reconhecido pelo próprio pai, e que sempre quis trabalhar a uva que era sua, está nas prateleiras da quinta que lhe levou a alcunha emprestada.
Niepoort Riesling Dócil

“Riesling Au Au, tal como o cão, é um vinho fiel e com uma identidade muito divertida”, lê-se na página oficial dos vinhos produzidos por Dirk Niepoort. O rótulo do vinho (na fotogaleria) ajuda a explicar a afirmação, não fosse este dominado por cães desenhados a traço fino e a preto e branco. A casta riesling é explorada no Douro por Nierpoort desde 2003, trabalho continuamente inspirado na região alemã de Mosel e que resulta em vinhos “incrivelmente leves e precisos, com um perfeito equilíbrio entre açúcar e acidez”.

Monólogo A&D Wines

Os vinhos Monólogo, criados pelo casal Alexandre e Dialina Gomes, funcionam quase como uma conversa privada entre o vinho e quem o bebe. Isto porque os três monocasta — arinto, avesso e chardonnay — e monoparcela pretendem ser um tributo ao seu ADN. Em cada rótulo está uma ilustração que consiste na personificação do tipo de uva usada. Mas quem melhor o explica é Dialina: “Criámos personagens capazes de traduzir as principais características das castas. No Monólogo Arinto, por ser uma casta muito aromática, temos uma pessoa a segurar flores, enquanto no Monólogo Avesso, por ser um tipo de uva muito característico da região, aparece no rótulo um funcionário agrícola”. Já o chardonnay, casta com identidade francesa no BI, é a figura de uma senhora elegante e tipicamente francesa que se destaca. Os três vinhos já vão na segunda colheita (a primeira data de 2015) e existe até uma quarta referência, o Monólogo Essência, um vinho doce monocasta avesso.


Bastardo

Pode não parecer, mas “bastardo” é o nome de uma casta duriense que ora desperta amor, ora o mais puro dos ódios. O tipo de uva, atualmente em vias de extinção, foi muito usado em séculos passados mas acabou por ser abandonado por causa da pouca cor, por ser sensível a zonas quentes e, do ponto de vista do produtor, difícil de controlar. Trabalhar com uvas “bastardas” — se assim as pudermos chamar — seria sempre um desafio, mas a enóloga Rita Marques, responsável pelo projeto Vinhos Conceito, resolveu correr o risco à mesma. “O meu avô tinha plantado uma parcela de bastardo há 40 anos, pelo que resolvemos experimentar. O risco tinha sempre de ser corrido”, garante. Da “brincadeira séria”, que começou com a colheita de 2007, haveria de surgir um vinho diferente, mais leve e elegante, que foge ao perfil típico do Douro e “esgota nos primeiros 15 dias”. A única alusão ao significado da palavra “bastardo” tal como a conhecemos está no rótulo assinado pelo artista João Noutel. Mas se a casta é bastarda, o vinho é legítimo.

Aventura e Procura

Um é atrevido e alegre, com alma festiva e faro para a aventura. Outro recebeu recentemente a mais alta pontuação de todos os brancos alentejanos provados na edição de julho da conceituada revista americana Wine Spectator (91 pontos). Os vinhos brancos Aventura (2016) e Procura (2015) são da autoria da enóloga Susana Esteban, que em 2011 decidiu aventurar-se enquanto produtora de vinhos no Alentejo. Se o Aventura resulta do loteamento de uma vinha velha de Portalegre e outra de Estremoz, o Procura nasce de uma vinha octogenária, em plena Serra de São Mamede, em Portalegre, e resulta de uma procura de dois anos pelas vinhas ideais. Os vinhos são diferentes entre si, mas irmãos na identidade: os rótulos divertidos e femininos falam por si.
Mais Vale Tarde Do Que nunca

O rótulo brilha tanto ou mais do que o tom dourado q.b. do Late Harvest que a Real Companhia Velha criou para o restaurante 100 Maneiras. O colheita tardia, vindo dos socalcos do Douro e do ano 2013, leva o nome “Mais Vale Tarde do Que Nunca”, associando o conhecido provérbio ao ato de beber. Faz sentido, dado que o vinho levou tempo a ser feito e a fazer-se — resulta da ação do fungo da Botrytis Cinerea sobre as uvas sémillon, um fenómeno natural também conhecido por “podridão nobre”. Considerado “doce, glicérico, saboroso e longo”, é fruto da primeira experiência partilhada entre o chef Ljubomir Stanisic e a Real Companhia Velha, que em 2016 celebrou 260 anos.

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